V Coletiva do Espírito Santo
 
de 9 a 17 de julho de 2011 - Leia com atenção antes de efetuar a sua inscrição.


Caminho do Espírito Santo


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Antônio Ambrósio é o que poderíamos chamar de um cara de sorte. Apesar dos vinte e poucos anos, era respeitado por todos e amado pela família. Bem sucedido na vida e nos negócios. Superando todas as dificuldades de um pequeno proprietário conseguira ampliar os bens, tornando-se admirado por muitos e invejado por alguns. Mesmo com a pouca idade, a inteligência e bom senso lhe davam autoridade para resolver as pendengas da vizinhança. Fosse doença, desavenças, maledicência e outras ciências mais, lá estava ele para a palavra final. Um São Francisco. Fora criado na fé. Seus falecidos pais tinham lhe dado uma boa educação, fazia gosto ver.

Tinha mulher e um casal de filhos, que também comungavam toda aquela felicidade. Aos domingos, quando iam para a missa no vilarejo em sua charrete vermelha com cruzados brancos, chamavam a atenção de todos pela luz que irradiavam, pura alegria. Até o cavalo que puxava a charrete, parecia sorrir com os relinchados estridentes. Santa harmonia, diziam alguns fazendo o pelo sinal:

- "Benzo Deus!"

Mas, a vida não é só isso que se vê...

Um pequeno descuido pode ser fatal. Foi isso que aconteceu naquela sexta-treze. A bruxa estava solta e Antônio Ambrósio, baixou a guarda. Estavam alegres, ou melhor, os lavradores estavam radiantes. Depois de um ano passado, fraco, colheita ruim e preços piores ainda; tinham conseguido fechar aquele ano com chave de ouro. O cafezal estava uma "lindura", era a melhor safra dos últimos anos, e preços, melhores, impossível!. Acabavam de assinar um contrato, através da Cooperativa, de tirar a barriga da miséria. Tinham que "bebemorar". Claro que Antônio Ambrósio beberia o seu refrigerante, não tomava bebidas alcoólicas.

Depois de uma experiência frustrante com a "dita", resolvera não insistir. Há alguns anos, um desentendimento com a esposa, quando ainda eram apenas namorados, o deixara magoado. Com aquela mesma turma, tinham ido para um bar e tomara todas. Fora um desastre. Depois do acontecido, prometera a si mesmo que nunca mais, em toda sua vida, colocaria o álcool em sua boca. Mesmo porque, seus parentes e amigos aconselharam, os pais lhe passaram sermão e a namorada impôs condições para voltar. É! Não tinha jeito, aquela não era uma boa idéia. Para completar, os pais o presentearam com uma pequena bíblia e a dedicatória o deixou muito emocionado.

Por isso, foi uma surpresa geral, quando ouviram o seu pedido numa voz que não parecia a sua:

- Bota um copo pra mim também!

No meio de toda aquela algazarra, quase que imperceptível, um silencio gelado percorreu o ambiente. Interrogações estamparam-se por sobre as cabeças e uma voz soturna e anônima falou:

- Calma gente! É só um copo! Afinal de contas, um copinho não faz mal a ninguém! Ele merece! Foi o suficiente. Enquanto as interrogações se desmanchavam dentro dos copos e das mentes, Antônio Ambrósio tomou o primeiro gole. A transformação era assustadora, alguém que conseguisse enxergar um pouco mais, veria o coração acelerar, o suor gelado e invisível correr pela face, o olhar injetar e a alma vender-se. Com apenas um gole ele já não era mais o mesmo. No seu coração batia apenas uma frase que ecoava em seu cérebro:

"Um copinho não faz mal a ninguém!"

Ele não sabia que era portador de uma doença chamada alcoolismo. Uma doença progressiva, incurável e de terminação fatal. Capaz de transformar qualquer ser humano em um indigente. O primeiro gole prepara o terreno para outro, mais outro... Foi o que aconteceu!

Coisa de bater com os nós dos dedos na madeira, que é para expulsar o mau pensamento ou a má palavra.

Ao acordar, assustou-se por não ouvir o galo cantar, só grilos. O sol já estava ao meio. Era meio dia. O gosto de guarda chuva velho na boca, o desgosto, a dúvida, o medo, a raiva, a cama vazia, o vazio...Não! Não era sonho! Não sabia como havia chegado, o que havia feito. A boca seca. Sujo. Fedorento. Sentiu que a sujeira havia manchado sua alma. Algo pegajoso, grudento, havia lhe envolvido. Precisava de um banho. No seu coração batia apenas uma frase...

Pensou em chamar alguém, não teve coragem. A cama tremia, o corpo gemia e a cara... Não tinha onde enfiar! O susto foi maior quando sentiu que apesar de tudo, ansiava por mais uma dose.

A boca estava seca. Precisava beber alguma coisa. Conseguiu chegar à cozinha. Todos estavam em silencio, haviam acabado de almoçar e seu prato estava feito sobre a mesa. A dúvida. O silêncio aumentou. Os olhares atravessaram ecoando nas paredes. Sinal de que havia aprontado. Até o cão, amigo, saiu de fininho sem fazer ruído. Como se combinado, todos também saíram cada um pro seu canto. Tentou tomar água, mesmo com toda sede, não desceu bem, o fígado reclamou. Sentou-se diante do prato. A comida, como sempre caprichada e feita com amor não foi o suficiente para despertar a fome que estava anestesiada pelo excesso. Lembrou-se da cachaça que ficava debaixo da pia e era servida aos empregados. Seu corpo arrepiou num misto de gozo e nojo. No seu coração batia apenas uma frase...

Como dizem:

"Pra construir se gasta toda uma vida, mas, pra destruir..."

Nem todas as orações e promessas foram suficientes para impedir o fundo de poço. Faltava a consciência e a disposição para reverter o processo. Em poucos anos, o que era progresso, liderança e admiração inverteu-se para destruição, dependência e gozação. Boa parte da propriedade já havia sido vendida para pagar as dívidas. Os filhos já não estudavam direito pois eram sempre alvo de brincadeiras. De filhos do "Seu" Antônio Ambrósio a filhos do "Tõe Cachaça". A esposa desdobrava-se para tentar dar conta do recado.

Estava por um fio. Restava-lhe a charrete, agora toda amassada, pelos sucessivos maus tratos; o cavalo, mal cuidado, cheio de carrapatos e mal alimentado. Mas eram sua muleta nas idas e vindas ao povoado.

Foi numa dessas vindas que aconteceu o previsível. Antônio Ambrósio depois de beber todas, como acontecia sempre, foi colocado em sua charrete. Ameaçava um temporal e trataram de açoitar o animal para que a entrega fosse feita a tempo. Mulher e filhos rezavam sob a luz da lamparina. Chuva maior não podia. Raios cruzavam o céu e trovões ecoavam pelo vale e o "Tõe Cachaça"...

O cachorro latiu e os de casa relaxaram um pouco, a charrete estava chegando. Ela e os filhos correram ao seu encontro. A charrete estava vazia. Enlameada, machucada; o cavalo também. O desespero rondou as faces crispadas. Lágrimas se misturaram aos pingos de chuva, o clarão dos raios deformavam ainda mais aqueles olhares sofridos. O ronco de um trovão prolongou aquela agonia. Era o fim.

O amor é infinito, Deus provem aqueles que o procuram. Ana Alice, a esposa de Antônio Ambrósio, apertou em suas mãos o terço que ainda trazia marcado e elevou seu pensamento à aquele que tudo pode. Sentiu-se invadir por uma força renovadora, a disposição e a vontade tomaram o lugar da desesperança. Pediu aos filhos que tomassem conta da casa e foi à procura de Antônio. Pediu ajuda aos vizinhos e foram todos para o caminho. A chuva incessante dificultava a busca. Desciam fortes enxurradas pelos grotões, alguns começaram a desanimar. Não tinha jeito. Todos estavam correndo perigo. Não havia mais marcas na estrada onde poderia ter ocorrido o acidente. Mas no coração de Ana Alice havia marcas daquele que ainda era o seu grande amor. No seu amor havia esperança de um novo dia. Um relâmpago cortou o céu de ponta a ponta, derramando luz em abundancia, a claridade permaneceu alguns segundos, o suficiente para que ela mantivesse suas esperanças. Avistara ao longe, na beira do lago formado na várzea alguma coisa.

Com bastante dificuldade chegaram ao local, era ele. Conseguiram resgatar o corpo. Estava vivo.

Acordou no dia seguinte, mas, já não estava preocupado com as horas, com o galo nem com os grilos. Algo além do desastre havia acontecido. Lembrava-se vagamente. A chuva abundante que açoitara seu corpo e a água gelada que o fizera recobrar a consciência. O cavalo assustado que estava disparado pela aquela estrada barrenta. Ele, ainda sobre os efeitos do alcool tentando tomar pé na situação no momento em que derrapavam indo de encontro ao barranco e  sendo arremessado despenhadeiro abaixo.

Clarões, trovões, luz, muita luz no meio de toda aquela escuridão. Sua vida foi repassada em alguns segundos, achava que havia chegado à hora. Lembrava-se também do momento em que caíra no leito do rio e era arremessado por entre as pedras, como um barquinho de papel. Foi neste momento que sentiu a grandiosidade da natureza... a presença de Deus. Foi então, que reunindo toda a força que lhe restava  num grito desesperado, pediu ajuda. Ele não sabia como, mas, sabia que chegara à margem. Sabia que era um milagre.

O cheiro do café deu-lhe forças para levantar. Apoiando em uma das pernas, a outra estava bem machucada, esbarrou na pequena cômoda que ficava em frente à cama, fazendo cair a Bíblia que seus pais lhe deram de presente. Bons pensamentos fizeram-no abrir a primeira página, o primeiro passo. Seus olhos úmidos percorreram as linhas da dedicatória. Uma lágrima pousou na última frase:

"Este é o caminho, a verdade e a luz."

Paulo Basstos


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