Depoimentos 


Depoimentos












 Um caminho para recordar

Por JUÍZA MARGARETH SANCHES 

Depois de passar por uma experiência dolorosa com a perda do meu marido, no ano de 2006, encontrei uma atividade que me possibilitou equilíbrio emocional e autoconhecimento quanto as minhas limitações e possibilidades de superação: a caminhada.
Inicialmente as caminhadas eram feitas solitariamente pelos parques e ruas de Brasília, mas com o passar do tempo, me engajei a um grupo de caminhadas por trilhas urbanas e rurais no Distrito Federal e nos arredores de cidades dos Estados de Goiás e Minas Gerais.
Posteriormente, procurei por outros grupos na internet, deparando-me com o site do portaldocaminho.org, organizado por Paulo Basstos, responsável pela rota denominada “Caminho do Espírito Santo”, que passa por vários municípios/distritos do Estado de Espírito Santo e do Estado do Rio de Janeiro cujos nomes são de santos.
Vi aí um grande desafio físico, emocional e espiritual, pois teria que caminhar 235 Km, em 09 (nove) dias, perfazendo uma média de 25,55 Km por dia, à uma altitude variável entre 70 a 800 m, passando por cidades/distritos dos Estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, na companhia de pessoas, inicialmente, desconhecidas e hospedando-me em alojamentos humildes e improvisados nas residências de moradores ao longo da rota.
Em julho de 2011, comecei a caminhada pela cidade Bom Jesus do Itabapoana-RJ a São José do Calçado-ES (22Km), com o guia Paulo Basstos e outro caminhante. 


Nesse primeiro dia, já percebi que, fisicamente, a viagem seria um desafio gigantesco, pois as bolhas nos pés começaram a indicar que a jornada seria árdua. De outro lado, também percebi o grande desafio 
 
Início da caminhada – saindo de Bom Jesus-RJ em direção a São José do Calçado-ES

emocional de estar aberta para desfrutar da maravilhosa oportunidade de ter contato com a natureza e me conhecer melhor, já que, apesar de estar caminhando em grupo, na maior parte do tempo, o caminho é percorrido de forma individual, em razão do ritmo de cada participante.
Após percorremos mais de 20 Km, chegamos a cidade de São José do Calçado-ES e pernoitamos em uma pequena, humilde, porém, aconchegante pousada, onde dois outros caminhantes se juntaram ao grupo.
No dia seguinte, recuperada do cansaço da estréia e, após um café da manhã reforçado, partimos em direção ao local conhecido como Alcantilado/ES (Cemitério dos Escravos) na propriedade do Paulo Aguiar, que se mostrou ser o trecho mais difícil da caminhada, pois, além de bem longo, 26 Km, o calor era intenso, principalmente quando  tivemos que caminhar pelo asfalto, por várias horas, em uma movimentada  rodovia. 

Ao final desse dia, nos hospedamos em um casebre situado em uma fazenda onde tivemos que usar saco de dormir, uma vez que não havia camas no local. Para compensar a falta de conforto, tivemos a satisfação de um delicioso jantar preparado com muito carinho por uma moradora da região.
No terceiro dia, tomamos o rumo de São Romão/ES, passando por Guaçui/ES. Durante o caminho pudemos apreciar paisagens naturais maravilhosas, passando por montanhas floridas, pastagens verdejantes, quedas d’água, ocasião em que fomos acompanhados por borboletas e inúmeros pássaros. 

Do Cemitério dos Escravos-ES a Guaçuí-ES                                                            

 
Chegando a Guaçuí-ES

                       
Saindo de São Pedro de Rates-ES para Santa Clara-RJ

Depois de Guaçui/ES, chegamos ao Sitio do simpático casal, Sr. Paulo Afonso e D. Regina, que nos ofereceu um maravilhoso jantar e, de quebra, me acolheu com um carinho especial, oferecendo-me um quarto com suíte na residência deles, enquanto os demais caminhantes dormiram em um alojamento próximo.

Propriedade do Zé Adílio, próximo a Santa Clara-Porciúncula-RJ

A partir de Guaçuí/ES o clima se modificou sensivelmente, pois começamos a nos deslocar em direção a Santa Clara/RJ, região de altitude elevada, onde foi registrada a temperatura de 3ºC.
Embora estivéssemos sentindo muito frio, fomos acolhidos em Santa Clara/RJ, em uma fazenda, de forma muito calorosa, tendo sido disponibilizado um ranchinho para nossa hospedagem e um fausto jantar preparado pela simpática Néia que, ainda, me presenteou com flores colhidas no jardim de sua casa.
 
No sexto dia, a caminho de Purilândia/RJ, dois caminhantes desistiram de prosseguir. Nós, que persistimos, passamos por plantações de café e laranjais, onde aproveitamos para descansar um pouco, saboreando suculentas laranjas, dos tipos pêra e lima, colhidas diretamente do pé.
 
No Recanto de São Francisco-Fazenda Córrego do Ouro (Zezé e Malu) próximo a Santa Clara-Porciúncula-RJ

Cansados, pela exaustão do percurso até ali realizado, pernoitamos em uma escola de Purilândia/RJ.

 
Conquistando o equilíbrio próximo a Purilândia-Porciúncula-RJ

No dia seguinte continuamos por mais 30 Km rumo a Bom Jesus do Querendo/RJ. Embora esse trecho do Caminho fosse um dos mais bonitos, pois passava por estradas de terra entre regiões planas e montanhosas, nosso esgotamento físico dava sinais, pois mais um caminhante desistiu de realizar o próximo percurso a pé, utilizando transporte coletivo para chegar até a cidade de Natividade/RJ.

Consegui concluir o percurso entre Querendo/RJ e Natividade/RJ, 29 Km, com muita dificuldade, pois a região montanhosa, embora belíssima, apresentou um desafio ainda maior.

Chegando em Natividade/RJ, encontramos o caminhante que havia se deslocado de ônibus para aquela cidade e, para minha surpresa, no dia seguinte, percebi que minhas condições físicas não me permitiriam continuar no Caminho.
Infelizmente tive que fazer de carro o trajeto de Natividade/RJ a Porciúncula/RJ e de lá até Tombos/MG, onde me encontrei novamente com o grupo de caminhantes.

 

Vista parcial do Vale do Carangola-Tombos-MG
  
Cachoeira de Tombos-MG, aqui concluímos o Caminho do Espírito Santo.

Embora não tenha conseguido completar o Caminho, me senti extremamente satisfeita com o resultado alcançado, pois nos sete dias de caminhada percorri aproximadamente 200 Km e tive acesso a lindas paisagens em agradáveis trilhas.

Não bastasse isso, acredito que o desafio emocional e espiritual foi alcançado, na medida em que experimentei paz interior e um sentimento enorme de gratidão a Deus por ter me oportunizado essa rica experiência de contato com a natureza por Ele criada, além de me presentear pela convivência com pessoas hospitaleiras e de tão espírito elevado.

Finalizando, aproveito para compartilhar o pensamento de Paulo Basstos, responsável pelo “Caminho do Espírito Santo”, que conseguiu tão bem traduzir meus sentimentos em relação a  profunda reflexão que tive ao  percorrer o “Caminho do Espírito Santos”: “Um caminho não é apenas uma linha sinuosa ligando vários pontos. Um caminho é a união de sonhos distintos a propósitos semelhantes, a superação das fraquezas e o fortalecimento das virtudes, a energia de quem acolhe e daquele que passa. É a oportunidade de agradecer ao Criador pela beleza da vida.(...) O Caminho também é feito de dores, de lágrimas, sorrisos, flores no cabelo, dipirona, fumaça, unhas pintadas, debutantes, veteranos, almas lavadas, bolhas, roncos e trovões. Um caminho é feito com o coração.”


*As fotos foram tiradas pela juíza Margareth Sanches
 


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