Causos do Caminho

 A primeira missa
 
Aquela tarde de segunda, primeiro dia do caminho, travava também uma batalha. Dessa vez não eram fantasmas, era o meu estomago. Não tinha comido meu feijão com arroz e o natureba, apesar de ser delicioso, não deu para preencher todo o espaço; estava consumindo mais energia que uma locomotiva.

Estávamos chegando à trilha que subia para a Gruta Santa - Catuné e alguém disse que ali haveria um lanche. As lombrigas se assanharam, mas me deixaram em paz por algum tempo. Daqui a pouco eu tiro a diferença. Mas ao chegar ao local:

- Cadê o lanche? 

Para meu desespero e das parasitas disseram que o lanche não seria mais ali, seria na gruta. Olhei o pasto em frente onde passava a trilha, medi com os olhos. Se não pusesse alguma coisa no estômago não daria pra chegar. O jeito foi assaltar a horta da tia Célia, que é ali perto. Abracei uma folha de couve numa cenoura e aliviei a situação.

Mais a frente encontramos com o Jairão - o “Bigode” de Carangola, também um irmão de décadas - fizemos o ginasial juntos. Achei que ele não estava cem por cento, mas, naquela altura do campeonato, quem estava? Juntamo-nos a ele e fomos subindo. Ele começou a ficar para traz, até que desapareceu naquela virada da cerca, perto do córrego. Falei com a Fabrícia que iria esperar por ele e ela seguiu em frente.

Quando ele apareceu, eu vi que a coisa tava mesmo ficando preta. Conseguimos chegar até aquelas pedras do córrego. Ele falou:
 
- Tá brabo, muita câimbra. Pensei em fazer uma repiração boca-a-boca, mas aquela vassoura - o bigode, iria atrapalhar, então falei pra ele: 

- Jairão, vamos fazer que nem na televisão quando o jogador cai cheio de câimbra: estica as pernas que eu vou apertar pelas pontas dos dedos; se não resolver, pelo menos engana a galera. Parece que melhorou, pelo menos foi o que ele disse; depois, seguindo o exemplo da Katiucha que já estava com os dois pés naquela água congelada, sugeri que ele fizesse o mesmo. Se não melhorasse a câimbra, o máximo que poderia acontecer era ele pegar um resfriado; e providenciamos o reboque na kombi do Vinícius - o de Tombos. Eu segui a pé em direção a Gruta, atrás do lanche. Depois de todo esforço na tentativa de recuperar o Jairão, a couve e a cenoura já tinha mandado lembranças.

Chegando lá: 

- Cadê o lanche? Olhei por toda a gruta, não havia nem sinal do lanche. Encontrei-me com Fabrícia e qual a primeira pergunta: 

- Cadê o lanche? 

- O lanche seguiu pro Catuné. 

- "Tais brincando!" Eu "guentava" firme - né Roberto - o de BH, mas, as lombrigas já estavam desmaiadas. Falei pra Fabrícia que eu iria atrás do lanche, não dava mais pra segurar, ela ponderou: 

- Espera a Missa e nós vamos juntos, aguenta mais um pouco.

- Num dá, mais num dá mesmo! Quando viram a minha situação, sugeriram até uma condução, mas o orgulho falou mais alto: 

- Pode deixar que eu vou a pé mesmo. 

Chegando ao Catuné:

- Cadê o lanche? 

- Táli, oh! 

Entrei no salão e olhei sobre a mesa - mandioca e broa de milho. Não que eu não goste; eu não devo comer. Com as forças que me restavam, corri para o bar. “Me dá um pão e umas gramas de mussarela”, pedi ao Gustavo. Ele mediu o tamanho da minha fome e trouxe a mussarela e quatro pães. Eu falei: 

-Quêisso cara? 

- Se você não comer tudo...” (né, Roberto). Dei conta do recado - os pães eram pequenos.

Naquela sonolência pós refeição, chegou o Jairão quase que totalmente recuperado. Quase, porque os primeiros pavios de coriza já se derramavam sobre o bigode. Ele me perguntou:

- Vamos à Missa?
 
- Oh cara, aquela Missa já deve ter acabado - barriga cheia, satisfeito, eu ia lá pensar em missa?!.
 
- Vamos, rapaz! Insistiu ele cheio de gratidão - afinal de contas eu tinha sido o salvador da pátria. Foi aí que eu entendi que a brincadeira já havia acabado e eu também tinha muita coisa pra agradecer. Eu não contei, mas lá atraz, entre a câimbra do Jairão e o lanche, eu havia optado pelo lanche, deixando o Jairão por conta de uma alma mais caridosa que aparecesse. Já estava seguindo em frente quando o Senhor me deu um puxão de orelhas, fiz um exame de consciência e vi a oportunidade que Ele estava me dando. O ônibus já estava de partida. Passei um guardanapo nos beiços e segui viagem.

A Missa estava começando, sentei-me ao lado da Fabrícia e ela olhou para mim aliviada, sentiu que aquela batalha eu tinha resolvido. Eu me aconcheguei mais um pouco, porque o astral tava muito bom. Na primeira música, eu senti que não estava numa missa qualquer. Eu estava na Missa, estava na minha Primeira Missa, estava em casa, estava em paz e com Deus. Daí em diante fica até difícil contar, mas vamos em frente.

”Senhor, eu sei que tu me sondas, eu sei que tu me sondas, eu sei que tu me sondas...”

O sermão, não foi um sermão, foi um bate-papo. O Padre estava iluminado.

Os testemunhos, não eram testemunhos, eram mímicas, quem falava era eu; dava vontade que o tempo parasse.

A cada acontecimento a garganta apertava, os olhos lacrimejavam e eu sussurrava: “Obrigado Senhor, por tudo que me deste até este momento, obrigado Senhor!

No momento da comunhão eu já me sentia comungado; o vinho e o pão seriam complementos. Meu contato com Deus havia melhorado substancialmente.

E no final, a Folia de Reis. Na primeira batida do surdo (sem frescura, como dizem por aqui: triscô tudo!), arrepiei da pontinha da unha do dedão do pé até a ponta do último fio de cabelo da cabeça. Aleluia!

Neste momento eu já havia perdido a noção de tempo e espaço. Já não sabia se estava numa Gruta Santa, numa Santa Igreja ou Nave Santa. Sim, era uma nave, o primeiro estágio de uma viagem que duraria mais alguns dias, alguns meses, anos e porque não, por toda a eternidade.

"Nem só de pão vive o homem!!!"
 
Cervantti - o Caminhantti Errantti.
 


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